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Pela Professora Margarida Antunes, FEUC.

“No presente momento, as pessoas estão de uma forma que não é nada vulgar na expetativa de um diagnóstico mais fundamental, estão particularmente disponíveis para o aceitar, desejosas de o experimentar, mesmo se este lhes parecer apenas plausível”. Estas palavras foram escritas por Keynes na Teoria Geral há mais de setenta anos, mas que hoje ganham uma atualidade exemplar atendendo ao mal-estar que se vai espalhando nos cidadãos europeus e em particular nos do Sul da Europa.

Na verdade, há quatro anos que se anda a prometer que a saída da crise está para breve. Inicialmente era apenas uma crise financeira e americana, depois também já era europeia, entretanto a crise de financeira passa a económica, de económica transforma-se em crise de dívida pública que se vai tornando hoje outra vez em crise económica. Há quatro anos que se anda a discutir as opções políticas e de política económica das instituições europeias e dos governos nacionais na tentativa de resolução das crises. A discussão incide igualmente em políticas económicas alternativas, outros caminhos possíveis, uns no quadro da própria arquitetura macroeconómica e institucional da zona euro, outros a pressuporem a rutura com esta última. Todavia, um contributo para a compreensão do presente europeu e para delineamento de propostas para o seu futuro deve privilegiar também uma outra reflexão que tem que passar por dois aspetos essenciais. Um reside na conceção e nos fundamentos económicos e políticos da zona euro. O outro, menos refletido e esquecido em muitas análises, é a reconfiguração do comércio internacional que se desenrolou em simultâneo com a formação da união monetária europeia.

Esta foi institucionalizada pelo Tratado da União Europeia de 1992 e simboliza a assunção do modelo da economia global (o chamado modelo neoliberal) no plano macroeconómico por parte da União Europeia. Neste sentido, a zona euro é uma construção com uma matriz ideológica bem precisa que tem marcado de forma indelével o seu funcionamento. Quando a proposta da criação da união monetária foi lançada, esta foi apresentada como um complemento lógico do mercado único europeu ao permitir ganhos de eficiência económica decorrentes da estabilidade cambial, que incentivariam o comércio internacional e o investimento direto estrangeiro, e a estabilidade de preços que levaria a uma melhor afetação de recursos produtivos e à diminuição das taxas de juro. No plano internacional, o euro poderia constituir uma moeda capaz de assumir o estatuto de moeda internacional similar ao do dólar, o que reforçaria o peso político e económico da União Europeia no mundo.

No plano político interno, mais do que as motivações económicas, a decisão da criação da união monetária foi uma escolha iminentemente política. Para alguns países, nomeadamente a França, seria uma forma de terminar com o desequilíbrio de poderes que existia no Sistema Monetário Europeu e de levar a uma participação colegial de todos os países na definição e gestão da política monetária e não só da Alemanha como até então. Seria assim uma espécie de recuperação da soberania monetária perdida. De início, o chanceler Helmut Kohl mas principalmente o presidente do Bundesbank oponham-se frontalmente a esta ideia e apenas quando a aceitação da reunificação alemã por parte da França estava dependente da formação de uma união monetária é que concordaram com a sua criação.

Os contornos neoliberais da união monetária europeia surgem logo com a definição dos critérios de convergência para a adesão que incidiram preferencialmente na taxa de inflação e no condicionamento das políticas orçamentais. Estas escolhas políticas refletiram-se necessariamente na arquitetura das políticas macroeconómicas da zona euro. Assim, o objetivo prioritário e único da política monetária comum, da responsabilidade do Banco Central Europeu (BCE) e em total independência face ao poder político, é a estabilidade de preços no conjunto da área, objetivo que a política cambial comum e as políticas orçamentais nacionais não podem pôr em causa.

Neste sentido, a política cambial tem funcionado quase sempre como uma política de apoio e em exclusivo à política monetária, privilegiando a valorização do euro. As políticas orçamentais nacionais, por seu lado, ficaram desde o início sujeitas ao cumprimento de dois valores de referência respeitantes ao défice público e à dívida pública, respetivamente, 3% e 60% do PIB, às regras do pacto de estabilidade e crescimento que obrigavam a respeitar o “objetivo orçamental a médio prazo de assegurar situações próximas do equilíbrio ou excedentárias” e à supervisão destas políticas por parte das instituições europeias. Hoje, com o Tratado sobre Estabilidade, Coordenação e Governação na União Económica e Monetária (TECGUEM), surge mais um valor de referência, que respeita ao défice público estrutural (o défice anual corrigido das variações cíclicas e líquido de medidas extraordinárias e temporárias) que não pode ultrapassar 0,5% do PIB. Neste âmbito, estão também previstos mecanismos de correção automaticamente ativados em caso de desvios e sanções pecuniárias que podem ser aplicadas quase de forma automática aos países não cumpridores.

Sabe-se que uma união monetária com uma moeda única como a zona euro, por definição, implica a perda de soberania em duas políticas fundamentais na gestão macroeconómica de um país: a política monetária e a política cambial. Quanto ao enquadramento das políticas orçamentais nacionais, a criação de uma união monetária não implica necessariamente o condicionamento imposto. Os motivos avançados foram dois. Um refere-se às externalidades negativas eventuais para os outros países da zona decorrentes de políticas orçamentais expansionistas, já que o aumento da dívida pública e o recurso ao financiamento no mercado de capitais poderiam subir as taxas de juros, resultando assim um aumento dos encargos da dívida de todos os países. Isto é uma leitura parcial dos efeitos destas políticas orçamentais, as quais também provocam externalidades positivas no exterior pelo aumento das suas exportações e logo do seu crescimento, o que favorece a diminuição dos indicadores orçamentais. O outro é o fator de pressão sobre o BCE que constituiria a subida das taxas de juro, o que poderia levar ao não cumprimento do objetivo de estabilidade de preços da política monetária, ao forçar o BCE a aumentar a liquidez numa tentativa de as baixar. É neste sentido também que no âmbito das políticas orçamentais nacionais se impõe a proibição de qualquer tipo de concessão de crédito aos governos por parte do BCE, o que coloca os governos nacionais, perante défices públicos, na dependência total dos mercados financeiros para o seu financiamento. O posicionamento do BCE face aos governos nacionais não tinha que ser necessariamente este, conforme os exemplos de outros bancos centrais como a Reserva Federal americana, o banco central da Inglaterra ou o banco central japonês mostram, quando financiam os défices públicos nacionais.

Estas escolhas à volta das políticas orçamentais revelam também a importância dada à sustentabilidade das dívidas públicas, ou seja, às condições necessárias para que estas dívidas não aumentem a prazo. Poder-se-ia ter pensado na hipótese de flexibilidade das políticas orçamentais nacionais, uma vez que a criação da zona euro ao implicar a perda das políticas monetária e cambial nacionais tornaria necessário criar ou reforçar instrumentos de política macroeconómica que garantissem a capacidade de resposta dos governos nacionais a problemas económicos específicos. Poder-se-ia também ter pensado na centralização de pelo menos parte dos orçamentos nacionais, embora uma hipótese pouco provável dado que implicaria algum federalismo europeu, ideia permanentemente falada, mas permanentemente rejeitada, ou aumentar a importância do orçamento europeu na resolução de problemas macroeconómicos comuns.

Ainda no âmbito das políticas orçamentais, há uma questão para a qual não foi ainda encontrado nenhum fundamento sólido e que inexplicavelmente deixou de ser debatida quando se formulam medidas de política de resolução das crises e propostas alternativas. Trata-se da questão de saber porque é que no quadro do condicionamento imposto às políticas orçamentais nacionais desde o início se optou pelos valores de referência já mencionados. Tem-se discutido até hoje a sua razão de ser: muito simplesmente sugerem-se apenas razões de ordem política e de forma a impossibilitar a entrada de alguns países no grupo fundador da união monetária, em particular os do Sul da Europa, ou em resultado de uma proposta da França que quereria impor uma norma de política orçamental francesa nascida na sequência da degradação das contas públicas francesas depois dos anos de 1970, fruto assim de circunstâncias bem precisas. Aponta-se “a regra de ouro das finanças públicas”, à luz da qual o défice público deve ser igual ao montante do investimento público, sendo então 3% sensivelmente o peso médio deste investimento no PIB da União Europeia nas duas décadas anteriores ao momento em que os valores foram definidos; refere-se igualmente que, atendendo à condição de sustentabilidade da dívida pública e considerando uma taxa de crescimento anual do PIB real de 3% e uma taxa de inflação de 2% (valor considerado pelo BCE para a estabilidade de preços), o peso da dívida pública no PIB estabilizaria em 60%, valor um pouco superior ao valor médio da altura, se o peso do défice público no PIB fosse de 3%.

Esta inflexibilidade (rigidez) das políticas orçamentais teve então como contrapartida a necessidade de flexibilidade dos mercados de trabalho no quadro de políticas de crescimento nacionais, principalmente as orientadas para o exterior, em que a variação salarial passa a ser vista como substituta da desvalorização cambial, e no caso de ocorrência de problemas económicos com especificidades nacionais. Esta preferência por ajustamentos económicos via mercado de trabalho é assumida pelas instituições europeias logo em 1992, que na altura ainda concebiam ajustamentos através de políticas orçamentais quando “obstáculos”, “rigidezes”, deste mercado os impedissem, e reforçada desde então e de tal forma que hoje se exclui praticamente qualquer tipo de políticas orçamentais anticíclicas ao mesmo tempo que se intensificam medidas de flexibilização dos mercados de trabalho europeus e se reduz com isto também a capacidade de funcionamento dos estabilizadores automáticos orçamentais. O exemplo presente de Portugal é aliás bastante elucidativo da conjugação deste tipo de políticas.

A Estratégia Europeia para o Emprego criada em finais de 1997, nas vésperas da efetivação da zona euro, em 1999, representa claramente o entendimento assumido quanto ao papel do mercado de trabalho nesta união monetária ou, por outras palavras, esta estratégia era a estratégia precisa para tornar os mercados de trabalho com a flexibilidade necessária para servirem de via de ajustamento macroeconómico. O seu principal objetivo é criar trabalhadores e mercados de trabalho adaptáveis às mudanças económicas estabelecidas pelos mercados regionais e globais. Neste sentido, com as linhas diretrizes definidas pretende-se que as políticas de emprego se dirijam diretamente à gestão quantitativa do emprego, propondo-se a diversidade de modelos contratuais de trabalho, através de alterações de ordem legislativa, e indiretamente através da remoção ou atenuação de algumas “imperfeições e obstáculos” (por exemplo, os subsídios de desemprego e as contribuições para a segurança social) que são julgadas estarem a impedir um funcionamento mais flexível do mercado de trabalho. Desde 2005, apela-se também a políticas de moderação salarial justificadas com a necessidade de criação de emprego e de aumento da competitividade.

Esta estratégia inclui-se também na preocupação permanente em “reformas” do lado da oferta da economia, centradas na remoção de distorções e obstáculos à livre concorrência e à livre circulação de mercadorias, trabalho e capitais e em estímulos à economia que passam no essencial pela redução de impostos sobre as empresas, diminuição do custo do trabalho e pela desburocratização ou, tal como é referido em documentos oficiais, reformas que criem um “ambiente favorável às empresas”.

Com as opções de políticas económicas nacionais — rigidez na utilização das políticas orçamentais nacionais, flexibilidade dos mercados de trabalho nacionais e promoção de políticas de oferta — criaram-se assim as condições para a existência de concorrência salarial, fiscal e social entre os estados-membros e o que é mais irónico é que, com isto, criaram-se condições de instabilidade e incerteza ainda maiores do que as que eram referidas como inerentes a desvalorizações cambiais que se quiseram eliminar com a criação da moeda única. Com isto, criaram-se também condições para a concorrência entre países na atratividade de investimento direto estrangeiro que, em conjunto com o anterior, criam condições para a fragilização da estrutura produtiva e nomeadamente do setor exportador de muitos estados-membros. Isto é provavelmente mais uma determinante dos desequilíbrios comerciais no interior da zona euro que estão no centro dos seus desequilíbrios macroeconómicos e cuja dimensão atinge hoje sinais preocupantes.

Assim, no debate atual sobre o futuro da zona euro ou sobre uma outra zona euro futura não é necessariamente a ideia da criação de uma união monetária europeia que deve ser questionada, mas sim a desta união monetária. Há então dois elementos-chave que questionam todo o seu fundamento e funcionamento. Um é objetivo único de estabilidade de preços da política monetária que tem penalizado a produção de bens transacionáveis europeus pela valorização do euro a que obrigou, que levou à proibição do financiamento monetário dos défices públicos nacionais e como tal à dependência total dos governos dos mercados financeiros e que condicionou as políticas orçamentais de cada país. É verdade que subjacente ao enquadramento destas políticas está presente uma conceção bem precisa de Estado. O Estado deve abster-se de interferir na economia, deixando funcionar os mecanismos de mercado, porque desta via se garante uma maior rendabilidade da atividade económica ou uma melhor eficiência na afetação de recursos produtivos, ou então deve-o somente fazer de modo a eliminar ou colmatar as “imperfeições” que impedem que estes mesmos mecanismos funcionem. Também com a forma de financiamento dos défices públicos escolhida está presente a ideia de que o Estado não tem que ter privilégios em relação às famílias e às empresas ou, por outras palavras, que o Estado deve ser tratado e deve gerir-se de forma idêntica à dos outros “agentes económicos”, deve seguir os princípios da gestão das empresas privadas, deve também orientar-se de acordo com os princípios da concorrência. Os acontecimentos de hoje podem até ironicamente levar a pensar que o Estado deve antes ser tratado, não como uma família, mas antes como uma família com baixos rendimentos, igual a muitas outras que existem por efeitos das crises e das políticas seguidas, que não tem possibilidade de recorrer ao crédito e tem de se sujeitar a condições impostas pelo exterior para obter algum apoio e assegurar a sua sobrevivência.

O outro elemento-chave é a instrumentalização do mercado de trabalho no seio da política económica que impediu um enquadramento macroeconómico mais expansionista na zona euro ao dar-se preferência à conceção do salário como um custo de produção e variável de ajustamento em detrimento da ideia do salário como uma componente do rendimento. Com isto, condicionou-se o consumo privado e o investimento produtivo na zona euro que não se refletiu em taxas de crescimento menores em alguns países devido à expansão excessiva do crédito em alguns, como a Espanha e a Irlanda, e à promoção de exportações noutros, sendo o mais emblemático a Alemanha. Mas, também com isto, se alimentou o desequilíbrio macroeconómico da zona euro decorrente dos desequilíbrios comerciais.

A reconfiguração do comércio internacional é o outro aspeto essencial para compreender o presente europeu ao revelar a vulnerabilidade do setor industrial na Europa e, como tal, ao questionar as capacidades de crescimento das economias europeias e logo de melhorar os indicadores orçamentais e a possibilidade de resolução dos desequilíbrios comerciais da zona euro. Para esta reconfiguração são apontados vários fatores, uns mais de ordem global como a intensificação da liberalização mundial do comércio, mais sentida depois de 1995, sob a égide da Organização Mundial do Comércio (OMC), e a financeirização da economia, movimentos nos quais os países europeus e as instituições europeias participaram como atores principais. Para além destes, há um fator específico da zona euro que é a valorização do euro.

A liberalização do comércio internacional que já decorria no seio do GATT acaba por ser impulsionada com a passagem para a OMC, em 1995, não só pelo facto de se passar de um simples acordo internacional para uma organização internacional, como também por esta mesma organização ter na prática como objetivo primordial promover e garantir o comércio livre à escala global, embora sem o assumir formal e explicitamente. A aceitação da China nesta Organização em finais de 2001 foi decisiva na reconfiguração do comércio internacional e na expansão chinesa no mundo. Aconteceu muito por influência da Administração Clinton que, por sua vez, foi pressionada por lóbis associados a empresas industriais americanas. A partir desta altura, as empresas ocidentais podiam investir na China e importar produtos intermédios ou produtos finais quase sem tributação e não havia a possibilidade de outros países retaliarem comportamentos de dumping cambial por parte da China. Por exemplo, no caso da União Europeia, entre 1995 e 2010, o peso das importações provenientes da China nas importações totais mais do que quadruplicou enquanto o das originárias de outros países de baixos salários apenas duplicou. Sabendo que muitas destas importações substituíram importações provenientes de estados-membros do Sul da União Europeia, isto mostra que esta evolução constitui um desvio de comércio que penalizou os défices comerciais destes países para com os outros estados-membro. No que respeita a Portugal, entre 2000 e 2005, o mercado da Alemanha é o principal responsável pela sua perda de quotas de mercado e em produtos onde a China aparece com maiores ganhos de quota neste mesmo mercado. Segundo o Figaro, o comissário europeu para o Mercado Interno, Michel Barnier, admitiu recentemente que a Europa foi “ingénua” nos  acordos comerciais assinados com países como a China, ao jogar “o jogo da ideologia ultraliberal”. “Neste grande vento ultraliberal acreditou-se que poderíamos  abrir as nossas portas e as nossas janelas, sem que os outros fizessem a mesma coisa”, lamentou. É verdade que a China se tem apresentado na economia global com uma estratégia muito própria, com uma forte presença do Estado, que aproveita habilmente as características internas (baixos salários, mais de cem milhões de trabalhadores chineses ilegais no seu próprio país, fruto da política de fixação de domicílio) e a “ansiedade” das empresas ocidentais em produzirem na China, levando-as mesmo a transferir tecnologia, e que não esquece a política de yuan baixo e os subsídios à produção em produtos concorrentes com os produzidos na Europa. Estranho é o comissário Barnier pensar que não seria assim, pensar que no quadro da OMC se “jogaria” uma “concorrência aberta, leal e não falseada”, tal como dizem os seus documentos oficiais, e que esta necessariamente levaria a ganhos para as partes envolvidas.

Quanto à financeirização da economia, esta revela-se com uma outra conceção de empresa que passa também a ser tratada como um ativo financeiro e com a valorização do princípio do valor para o acionista. Isto tem penalizado as possibilidades de investimento produtivo, a atividade económica e o emprego europeus, pois as grandes empresas às quais se associaram os fundos de investimento apostam em estratégias que permitam antes a valorização bolsista das empresas cotadas e a maximização dos rendimentos distribuídos. Estas estratégias passam por deslocalizações produtivas, subcontratações internacionais e externalização de certas fileiras ou segmentos de produção, com o objetivo de reduzir custos de produção e aumentar a rendabilidade. A subida dos rendimentos das empresas europeias daqui resultante não se tem refletido necessariamente em investimento produtivo no espaço europeu, antes pelo contrário, pois sabe-se que o peso dos investimentos financeiros feitos por empresas não financeiras tem aumentado de modo significativo e que muito do rendimento assim gerado não é repatriado para o país de origem, não é também reinvestido no país de produção, deslocando-se antes preferencialmente para paraísos fiscais.

A valorização do euro que ocorreu até 2008, ao penalizar a competitividade dos produtos europeus, constituiu mais um incentivo para deslocalizações produtivas de empresas europeias para países com salários mais baixos (países do leste europeu e China) e mais ainda se se trata de empresas produtoras de componentes, as quais passam a ser produzidas a preços mais baixos e importadas a preços ainda mais favoráveis graças à valorização do euro. Esta situação tem criado assim efeitos divergentes entre as economias da zona euro, penalizando os países como Portugal que vendem bens cuja procura é sensível ao preço e beneficiando países, como a Alemanha, que tem tido como um dos elementos-chave da sua política de competitividade deslocalizações produtivas nas condições referidas. Para além disto, a valorização do euro prejudicou também os produtores europeus que vendem para o mercado da zona euro, pela diminuição do preço dos bens importados que vieram substituir o consumo de produtos europeus.

Estes três fatores não estão desligados do declínio da indústria nas principais economias da União Europeia, que desde meados dos anos de 1990 veem o peso da produção industrial na produção total a diminuir sucessivamente, falando-se já de um processo de desindustrialização. Pensou-se que este era um movimento natural associado à terciarização das economias mais desenvolvidas às quais caberia no processo industrial apenas a investigação, a conceção dos produtos e as produções de alto valor acrescentado, cabendo as restantes produções aos países de baixos salários. Hoje, na Europa, a par do declínio relativo da produção industrial, existe cada vez mais externalização internacional de serviços, défices comerciais em muitos países, perda de quotas de mercado de produtos de média e alta tecnologia por parte de economias como a França e mesmo a Alemanha em favor de economias emergentes, como a China, e isto em parte devido a empresas europeias que numa lógica de rendabilidade passam a produzir nesses países transferindo também tecnologias. Há também na Europa um problema fulcral que é a dificuldade em tornar empregáveis muitos trabalhadores dispensados de empresas industriais nos últimos anos. Como questiona Henri Bourguinat, “será que se está seguro de que sacrificando demasiado os setores tradicionais será possível empregar toda a mão de obra libertada pela subida na gama dos produtos? Haverá sempre, em França, mulheres e homens como os da Moulinex, da Daewo ou da Kindy para empregar”. Pensa-se ou pensava-se que a aposta na economia do conhecimento como modo de tornar a União Europeia “na economia mais dinâmica e competitiva do mundo”, com mais trabalho qualificado, engenheiros, biólogos, médicos, químicos, físicos, era suficiente para se garantir o crescimento e a criação de empregos europeus.

Esta realidade ajuda a justificar o défice de crescimento das economias europeias e mais ainda as da zona euro, pela arquitetura de políticas macroeconómicas escolhida. Entre 2000 e 2007, a taxa média de crescimento do PIB da zona euro não ultrapassou os 2,1%, o que também é visível pela taxa de desemprego que em média no mesmo período foi de 8,5%. Esta mesma realidade também põe em causa as capacidades de crescimento futuras na zona euro e tanto mais quando alguns dos fatores referidos tendem a intensificar-se. É claro que isto tem efeitos diretos no peso do défice e da dívida pública no PIB, mas também efeitos indiretos pelo funcionamento dos estabilizadores automáticos orçamentais: um PIB menor significa menores receitas fiscais e também mais despesas sociais, pelo nível de desemprego verificado.

Uma análise mais global da década da zona euro torna assim estranho o diagnóstico da crise europeia feito em 2010. Mais do que uma crise de dívida pública, dever-se-ia ter identificado uma crise institucional e económica tanto mais que se sabe que neste ano o défice público da zona euro era de 6,2% do PIB, inferior aos 11% dos Estados Unidos e aos 10,2% do Reino Unido e o peso da dívida pública no PIB era ele também menor do que os destes dois países. Vale a pena perguntar então porque é que os títulos de dívida pública de alguns estados-membros passaram a ser objeto de especulação, ou seja, o que é que justifica este diagnóstico. Podem avançar-se algumas explicações: a) os mercados financeiros encontraram uma falha na organização da zona euro que levava a que os estados-membros ficassem dependentes dos mercados financeiros para se financiarem e sem que estivesse prevista formal ou informalmente a solidariedade suficiente entre eles em caso de possível incumprimento; b) como cada país da zona euro tem valores de referência a cumprir no que toca às suas políticas orçamentais e regras estabelecidas pelo pacto de estabilidade e crescimento a respeitar é possível aferir a existência de desvios na sua situação orçamental e na sua respetiva evolução; c) os mercados financeiros conhecem o défice de crescimento europeu passado e a vulnerabilidade da economia europeia perante a economia global e especificamente a vulnerabilidade de algumas economias.

Em 2010, a situação económica e financeira da zona euro foi assim identificada pelas instituições europeias e por governos nacionais como sendo uma situação de crise de dívida pública, que resultou de erros de governação de alguns estados-membros e de excesso de flexibilização das regras do pacto de estabilidade e crescimento e nunca do quadro institucional estabelecido, das opções de política macroeconómica da zona euro, da dependência dos governos dos mercados financeiro e do funcionamento desregrado destes. Dentro desta lógica, as medidas que vão sendo tomadas vão no sentido de restringir o espaço de manobra das políticas orçamentais nacionais, tal como consta no TECGUEM, e impor políticas de austeridade orçamental e não só nos países sob “assistência financeira”. O que é curioso e irónico é que este tipo de políticas é feito para recuperar as contas públicas tornadas bastante deficitárias em resultado do apoio ao sistema financeiro, como se os seus operadores privados não se pudessem expor a qualquer tipo de risco e assumir qualquer tipo de perdas, considerando-se assim necessário protegê-los de acontecimentos e comportamentos que eles próprios utilizam para fazer as suas apostas. Ainda dentro daquela mesma lógica, impõe-se também mais “reformas nos mercados de trabalho” ou seja, mais uma vez, a uma maior rigidez nas políticas orçamentais corresponde uma maior flexibilidade nos mercados de trabalho nacionais. E é assim também porque se continua a privilegiar a promoção das exportações como via de crescimento e o custo salarial como elemento decisivo de competitividade. Assim, com este diagnóstico, o risco que se corre não é apenas o facto de estas respostas às crises não serem eficazes, é também o risco ou já a certeza de estas mesmas respostas levarem outra vez a uma crise económica.

Pelo que foi exposto neste artigo, no mínimo é necessário questionar o diagnóstico feito. Como diz François Morin, “o que no fundo é censurado aos economistas [políticos e governantes] é a incapacidade em tornar inteligível a realidade tal como ela é e de serem incapazes de fazer um diagnóstico sem complacência. Esta seria claramente a única via que permitiria construir, de forma credível, os elementos de um cenário de saída da crise”. Quanto à diferença que tem que existir num novo paradigma relativamente ao presente, Morin é perentório: “É fundamentalmente a capacidade de aumentar o controlo da economia a ser feito pelo poder político e não mais, como até agora, a submissão da sociedade e do Estado aos interesses económicos privados e, em particular, aos interesses da esfera financeira”.

One thought on “A crise do euro ou o euro entre crises

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