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Pelo Professor André Barrinha, FEUC.

De olhos postos na Europa, o mundo tenta compreender como é que o continente mais rico do planeta parece incapaz de reverter uma tendência de declínio autoimposto. De Angela Merkel aos vários líderes dos países do Sul da Europa que viveram durante anos à sombra das baixas taxas de juro proporcionadas pela pertença à moeda única, ninguém sai ileso de uma crise que tem condenado milhões à pobreza, fome e exclusão social. As consequências estruturais desta crise podem ser profundas, com instituições irremediavelmente afetadas por cortes cegos na despesa pública e economias disfuncionais novamente voltadas para o baixo-custo de mão-de-obra e esperando que o preço da mesma suba o suficiente no sudeste asiático para que volte a compensar produzir na Europa.

Para muitos, o problema passa pela incapacidade da União Europeia (UE) em assumir um compromisso político-institucional que permita equilibrar as contas dos seus Estados-membros ao mesmo tempo que estabelece um caminho para a retoma do crescimento económico à escala europeia. É neste sentido que se questiona não só o futuro do euro, mas da própria UE. A fragmentação do projeto europeu, e até de alguns Estados-membros (Espanha, Reino Unido…), em resultado desta crise é hoje uma possibilidade a ter em conta. Contudo, quando olhamos para os vários elementos que constituem esta crise, o problema parece provir não necessariamente da ‘Europa’, mas antes da sua divisão inter-estatal. Em boa verdade, esta crise não é mais que um exemplo daquilo para que muitos autores em Relações Internacionais chamam a atenção há décadas: que o Estado é um elemento cada vez mais anacrónico num mundo de constantes fluxos transnacionais à escala global.

A crise europeia é marcada por dois elementos fundamentais. Primeiro, pela incapacidade de transferência de fundos de países com excesso de liquidez financeira para países com falta deste (como é o caso de Portugal). Em segundo, pela desadequação de um sistema político eminentemente nacional a uma estrutura económica-financeira global. Começando pela primeira questão, estivessem países como a Alemanha, a Holanda ou a Finlândia dispostos a transferir dinheiro dos seus cofres para os cofres de Portugal, Espanha e Grécia a fundo perdido, a crise estaria não necessariamente resolvida, mas eventualmente controlada. A razão fundamental pela qual isto não acontece é apenas uma: egoísmo nacional. Pensassem os cidadãos alemães a uma escala europeia e seria de todo natural para a estabilização da economia europeia que essa transferência de fundos ocorresse sem qualquer problema. São estes egoísmos que bloqueiam muitas das decisões à escala europeia, atrasando a adopção de soluções à partida inevitáveis. Curiosamente, os mesmos estados que recusam transferir dinheiro para outros estados em dificuldades assistem diariamente à entrada e saída diária de capital dos seus bancos e empresas a uma velocidade vertiginosa e com uma circulação à escala global. São também os mesmos que em nome da ‘economia nacional’ protegem os interesses de empresas multinacionais pertencentes a acionistas de todo o mundo e que não têm (e não têm que ter) qualquer tipo de ‘amor à pátria’. Apesar de o dinheiro ser hoje global, os Estados tratam-no como se este ainda pudesse estar dividido por fronteiras nacionais.

Num mundo de políticos e empresários, é extraordinário como os primeiros mantêm uma visão nacional (no máximo, europeia), enquanto que os segundos abraçam a realidade económica como uma atividade global. Fosse o Estado uma mera entidade funcional, desprovida de qualquer função política, e já há muito tinha desaparecido do mapa institucional das relações internacionais.

Quando as telecomunicações, a informação, a cultura, o dinheiro, as ameaças e os riscos circulam à escala global, continuar a olhar para o Estado como uma zona de conforto que à partida resolverá os nossos problemas é uma ideia tão anacrónica quanto o próprio Estado. É assim preciso desviar o olhar das instituições nacionais e tentar perceber de onde vêm os problemas que nos afetam e tentar atuar justamente a esse nível. Neste quadro, a Europa não é uma escala demasiado grande e ambiciosa para um contexto político estruturado à escala nacional. Pelo contrário, é o mínimo indispensável.

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