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Por Patrícia Machado, aluna de 3º ano da licenciatura em Relações Internacionais, FEUC.

As relações diplomáticas entre Israel e os Estados Unidos da América – a forma como Israel influencia a política externa dos EUA na  questão palestiniana.

A questão palestiniana é debatida e observada pelo mundo inteiro. A relação Israel/Palestina é utilizada como desculpa para o terrorismo, para a subida do preço do petróleo, para os políticos do Ocidente ganharem votos da população judaica ou muçulmana, entre muitas outras coisas. Como tal, e uma vez que esta questão é fundamental nas relações entre o Ocidente e o Médio Oriente, abordaremos as principais potências económicas e militares na situação palestiniana.

Assim sendo, partiremos da questão de como Israel influencia a política externa norte americana no que refere à Palestina. Muito tem sido questionado e especulado em relação a este tema, portanto abordaremos aqui o ponto de vista da diplomacia securitária a nível bilateral.

Argumentaremos que grupos políticos judaicos, tanto democratas como republicanos exercem grandes lobbies no governo norte-americano para que este apoie a causa israelita em detrimento da Palestina, uma vez que se consideram os judeus como cidadãos interessados na relação Estados Unidos da América (EUA)-Israel e não como uma comunidade religiosa interessada especialmente na política do seu próprio Estado (Brownfeld, 2011: 49-50).

Desde a formação do Estado de Israel, em 1948, que os EUA são seus aliados, tal como disse Obama, num dos seus discursos, tanto Israel como os EUA têm como valores comuns, a democracia e a igualdade, como tal suportam-se mutuamente (The White House, 2011). Ao longo da história os dois Estados tiveram opiniões e modos de agir diferentes uma vez que os EUA têm interesses e preocupações em todo o mundo, enquanto que os problemas de Israel são na sua zona, o que leva a que as suas preocupações não sejam tão territorialmente vastas como a dos EUA. As atuais divergências entre estes dois Estados na questão palestiniana advêm da expansão territorial (colonatos) por parte de Israel para territórios sob administração da Autoridade Palestiniana (U.S Departement of State, 2011).

A diplomacia moderna tem imensos desafios uma vez que depende de uma vasta rede de relações e agentes, paralelamente ao Estado, como as Organizações Não Governamentais (ONG), as empresas transnacionais e os media que ganharam um papel mais preponderante no sistema internacional, podendo então influenciar a política interna e, consequentemente, a política externa. Neste contexto, podemos também referir as novas tecnologias que são usadas como meio fácil e rápido de comunicação (Riordan, 2003: 129-136). Todos estes novos atores levaram a que se iniciasse um estilo de diplomacia associativa, onde os agentes se unem a um objetivo em comum, quer económico, político, securitário, social ou humanitário para que os laços entre eles sejam fortes e próximos, como acontece com os lobbys existentes nos EUA, que se agrupam ao Governo de forma a verem os seus objetivos cumpridos. Outra mudança visível foi o papel do embaixador, que perdeu importância nas relações bilaterais e multilaterais devido ao aumento da diplomacia de alto nível, mas por outro lado ganhou importância na política interna, no sentido em que tem um papel fundamental na decisão do tipo de política que é exercida no país recetor, através das informações partilhadas ao governo central (Barston, 1992: capítulo 1). Assim, os EUA preocupam-se com as repercussões negativas na opinião pública, tentando extrair desta aliança o máximo benefício possível.

Uma vez que Israel considera os EUA como um bom aliado diplomático, pois vê a sua democracia rica e uma atual potência hegemónica, estreita as suas relações a um nível bilateral e multilateral. Quanto à primeira, a condução é limitada a duas partes, geralmente “state-to-state”, este tipo de diplomacia é forte no sentido em que a unanimidade das decisões é obrigatória (Berridge, 2005: 155-167). As reuniões bilaterais geralmente dão-se a alto nível, nas constantes visitas oficiais entre Netanyahu e Obama, os tópicos debatidos são sobre a defesa de Israel e dos EUA, no que refere à situação do Médio Oriente. Estima-se que a última visita oficial do primeiro-ministro de Israel, em maio de 2011, aos EUA, tenha sido para debater a questão da adesão da Palestina à UNESCO e também para discutir a ajuda militar na forma de um “Iron Dome” (Yedioth news, 2011), ou seja, um método de defesa aéreo com capacidade para deter rockets.

Quanto às relações diplomáticas multilaterais, estas são uma boa forma de ter sucesso uma vez que a agenda estabelecida leva os intervenientes a concentrar-se no que realmente interessa. Porém dá-lhes também a oportunidade de estabelecer contactos e parcerias bilaterais. Este tipo de diplomacia pode ser entre três ou mais partes ou entre duas partes e um mediador (Berridge, 2005: 151-155). Quanto aos órgãos de discussão são quatro: EUA-Israel-ONU, EUA-AIPAC-Israel, EUA-NJDC-Israel e EUA-RJC-Israel. Na próxima secção explicaremos melhor o funcionamento destes órgãos de discussão.

A diplomacia pública moderna é sobre a promoção da imagem de um Estado aos outros, isso torna-se cada vez mais importante na medida em que as comunicações são cada vez mais rápidas e eficientes. Isto é bastante importante para se gerar o soft power (Nye, 2008: 94), ou seja capacidade de moldar as escolhas dos outros através da sedução, é uma forma de agir mais útil e eficaz sem ser necessário recorrer à coerção, como outrora se fazia.

Assim sendo, o soft power é utilizado no lobby na ONU com as votações das propostas de resolução do Conselho de Segurança, como foi o caso da proposta vetada a 13 de julho de 2006 pelos EUA pois condenava a ação israelita para com os palestinianos. Esta resolução foi submetida pelo Estado do Qatar e condenava a ação israelita sobre a população palestiniana e sobre os confrontos que na altura existiam na Faixa de Gaza (Jewish Virtual Library, 2012).

Segundo o Embaixador dos EUA no Conselho de Segurança das Nações Unidas, em 2006, John Bolton, essa proposta de resolução pedia muitas concessões a Israel, mas a Palestina não faria nenhuma concessão em troca, o que, segundo o Embaixador, seria algo injusto e não mencionava o facto de dois soldados israelitas estarem, na altura, sob cativeiro do Hizbollah, nem se aproximava da realidade do Médio Oriente. Segundo o mesmo, se esta resolução tivesse sido aprovada iria apenas aumentar as desigualdades e as tensões entre os Estados no Médio Oriente e isso seria contra as ideologias dos EUA (ONU, 2006).

Como se pode ver nesta resolução vetada, os EUA velam pelos interesses e segurança de Israel, a esta ação, Dan Gillerman, Embaixador de Israel nas Nações Unidas, agradeceu o apoio dos EUA (Ibidem). Já a AIPAC, NJDC e RJC existentes recorrem mais ao apoio financeiro às campanhas presidenciais norte americanas para verem as suas vontades favorecidas ou fazem amizades com congressistas norte-americanos (AIPAC, s.d.b; NJDC, 2012c; RJC, 2012b).

No que diz respeito ao hard power, que está mais ligado às ações bélicas e coercivas (Nye, 2008: 94-99), é mais facilmente identificado nas relações com a Palestina, através dos sucessivos postos de controlo israelitas colocados à entrada do território de Israel, incluindo os colonatos, e nos sucessivos embargos económicos que Israel faz à Palestina (Llosa, 2006: 31-37).

A segurança de um Estado é sempre uma preocupação principal para os seus dirigentes. Apesar dos conflitos desencadeados nos últimos 50 anos pode-se dizer que estamos a viver uma época de paz, pois os Estados compreenderam as mudanças ocorridas e conseguem manter os conflitos em pequena escala e numa reduzida área geográfica. Uma maneira de se conter a violência é através, por exemplo, de fortificações defensivas à volta do seu território (Sagan e Waltz, 2003: 3- 9). Exemplo disto será a construção do muro da Cisjordânia que, segundo Israel, é uma barreira defensiva, desta forma será mais fácil prevenir bombistas suicidas palestinianos de atacarem em território israelita, sendo que é uma solução temporária, até haver acordos de paz com fronteiras definidas (BBC, 2005b).Portanto, de acordo com Israel, esta situação meramente defensiva é apenas uma ação de peacekeeping, isto é, conter a violência e uma possível guerra, limitando assim a intensidade do conflito para a possibilidade de uma reconstrução da paz (Rambostham, 2005: 132-140). Em março de 2012, houve um pequeno conflito entre Israel e a Faixa de Gaza, onde o atual governo da Faixa de Gaza, Hamas, lançou rockets para o território de Israel. Isto levou a que a máquina dos lobbys começasse a entrar em ação e, consequentemente, a administração Obama pediu ao congresso norte-americano um aumento do fundo existente para o Iron Dome (NJDC, 2012a).

Assim, após esses ataques, o Secretário do Pentágono (Committee on Foreign Affairs, 2012) afirma que: Supporting the security of the State of Israel is a top priority of President Obama and Secretary Panetta. The United States has previously provided $205 million in support of Israel’s Iron Dome short range rocket and mortar defense system. During the rocket attacks earlier this month, the Iron Dome system played a critical role in Israel’s security. When nearly 300 rockets and mortars were fired at southern Israel, Iron Dome intercepted over 80 percent of the targets it engaged, saving many civilian lives. The Department of Defense has been in conversations with the Government of Israel about U.S. support for the acquisition of additional Iron Dome systems and intends to request an appropriate level of funding from Congress to support such acquisitions based on Israeli requirements and production capacity.

Posto isto, os EUA iniciaram conversações com Israel logo após estes ataques, de forma a acordarem a melhor estratégia defensiva que poderiam ter. Desta forma, os EUA irão tentar aumentar o Fundo existente para o Iron Dome para que se possa proteger melhor Israel uma vez que o atual Iron Dome é capaz de intercetar 80% dos rockets atirados, com outro, seriam capazes de intercetar 100% e proteger assim toda a população que esteja dentro das fronteiras de Israel (Ibidem).

O tipo de conflito entre Israel e Palestina é uma “dirty war”, isto é, os alvos não são necessariamente militares, são sim a população civil (Rambsbotham et al., 2005), ou seja, a maioria das vítimas dos atentados terroristas a Israel são civis e a retaliação de Israel através dos apertados postos de controlo nas suas fronteiras também afeta maioritariamente civis desarmados (Llosa, 2006: 31-37).

Concluímos que é impossível negar a influência de Israel na política externa dos EUA. A atual necessidade de sobrevivência implica grandes gastos militares por parte de Israel, ainda assim, e apesar de ser um Estado com uma economia forte, Israel precisa de ter poderosos aliados no sistema internacional, por estar rodeado de inimigos. Assim sendo, os EUA são um aliado de extrema importância para a sobrevivência de Israel e, apesar de sempre terem apoiado Israel, foi a administração Obama quem mais se esforçou para a incrementação da segurança de Israel (NJDC, 2012).

A interdependência entre o Governo norte-americano e as empresas geridas por judeus israelitas e o papel dos media traz-nos algumas conclusões interessantes para o nosso estudo de caso. Uma vez que as novas tecnologias providenciaram que as notícias se espalhassem pelo mundo rapidamente e, em imagens vividas e chocantes em tempo real, a política externa é baseada na informação que passa para a sociedade civil através da comunicação social (Gilboa, 2002: 5-8). A política de apoio a Israel teve de mudar, fazendo com que o apoio que vem dos EUA seja efetuado através do soft power, com o financiamento de projetos defensivos (Commitee on Foreign Affairs, 2012). Estas ações defensivas dependem muito da identidade de cada Estado, ou seja, o facto de Israel ver nas suas ações uma atitude defensiva não implica que os outros a vejam de igual modo, pois Israel tem a capacidade de produzir a sua identidade mas não de influenciar aquilo que os outros vão pensar de si (Hopf, 1998: 171-191). Por isso, a Palestina e toda a Liga Árabe veem nas atitudes defensivas de Israel atitudes ofensivas contra o povo palestiniano.

Até à Segunda Guerra Mundial a “diplomacia silenciosa”, ou secreta, era muito comum para selar acordos ou fazer alianças, mas com o final da guerra as comunicações ficaram muito mais fáceis e rápidas o que obrigou a uma inovação da diplomacia pública, onde o embaixador e toda a elite política começaram a preocupar-se com as informações circuladas nos media e com a opinião pública que daí advém (Iyamu, 2004: 218-224). Assim, o discurso político tem de ser conciliador com os ideais do EUA para que a opinião pública norte-americana esteja a favor da ajuda disponibilizada a Israel, como a partilha de valores entre estes dois Estados e a necessidade de prevenção de terrorismo (The White House, 2011; Committee on Foreign Affairs, 2012)

Reparamos assim na dicotomia entre soft power e hard power, uma vez que podem estar presentes ao mesmo tempo, na mesma questão, mas com atores diferentes. As relações entre Israel e EUA no que refere à Palestina são de amizade e de cooperação, mas o resultado de todas as medidas de segurança implementadas por estes dois aliados pode ser visto como uma ameaça e uma medida de coerção para com a Palestina.

Apesar de os EUA apoiarem o programa militar de Israel, não podem impor o seu modo de atuação num Estado estrangeiro, pois isso iria ser considerado como um tipo de ingerência nos assuntos internos de Israel. Como tal, apesar de não aceitarem as políticas colonizadoras de Israel face ao território palestiniano, nada podem fazer para alterar a política existente no Médio Oriente.

Em suma, o facto de os EUA apoiarem Israel e as suas políticas não implica necessariamente que possam interferir no modo como Israel conduz a sua política preventiva, o que indica que é Israel quem influencia os EUA e não o contrário, devido às frequentes ajudas financeiras nas campanhas eleitorais dos EUA, por parte da NJDC e RJC (NJDC, 2012b; RJC, 2012). Isto comprova o nosso argumento, em como o financiamento dos lobbys judaicos direcionam as decisões diplomáticas norte americanas na questão palestiniana.

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