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Iraque

Por Patrícia Fernandes, aluna de 3º ano da Licenciatura em Relações Internacionais, FEUC.

“«Are you here to work?» a Basra airport security guard asked me sympathetically. «We have fallen so far. We are alive but not living. May God be with you, my sister.»  I admitted I was a US citizen. «You didn’t fall» I said. «We pushed you»”.

Volvidos dez anos da invasão norte-americana ao Iraque, a cidade de Bagdad escureceu sob o fumo provocado pelos carros bomba. Assim se festejou na capital iraquiana a invasão norte-americana em prol da “defesa” do povo, bem como os subsequentes dez anos, que em nada melhoraram as condições deste país. Hoje, um quarto da população iraquiana vive em pobreza absoluta e as condições da restante população também não são favoráveis, tendo em conta que, em cada dez pessoas, quatro nem sequer possuem acesso a água potável e cuidados primários de saúde.

Os Estados Unidos da América, em 2003, embebidos pelas suas pretensões de intervir humanitariamente e de legitimar a sua defesa, invadiram, sem relutância, o Iraque. Esta ação, juntamente com a falha crassa da não-ação das Nações Unidas, levou o mundo a assistir a uma violação gravíssima do Direito Internacional e, mais do que isso, à ruína de inúmeras vidas humanas.

Estas motivações que culminaram na Operation Iraqi Freedom, nunca foram plausíveis a partir do momento em que, curiosamente, o governo de Washington só aludiu à questão da intervenção humanitária quando, afinal, não foram descobertas armas de destruição maciça. Algo que desconstruiu desde cedo esta pretensão é, obviamente, o facto de terem sido lançadas inúmeras bombas em áreas povoadas, o que abomina, por completo, a salvaguarda dos civis iraquianos.

A questão da legítima defesa “preventiva” prende-se com a sede de resposta face aos acontecimentos do 11 de Setembro, uma vez que as elites norte-americanas alegaram que Saddam Husein tinha ligações com Osama Bin Laden e, por sua vez, com a Al-Qaeda. Primeiramente, esta norma não se enquadra sequer no Direito Internacional. Segundo, não havia provas de que o governo de Bagdad era o responsável pelos ataques. Terceiro, é um pouco dúbia a conexão entre Hussein e Bin Laden, quando, na verdade, o último via o Partido Baath como um infidel, pela aceitação do apoio dos Estados Unidos, ao fornecer armas, aquando da guerra Irão-Iraque.

Passou-se uma década e parte da população da cidade de Basra, composta por xiitas, afirmou que a invasão norte-americana arruinou as suas condições de vida e que, ironicamente, sente uma grande nostalgia face à era de Saddam Hussein, apesar do medo e receio inicial que sentiram do Partido Baath (composto por sunitas!).

Quanto ao pilar da “reconstrução” pós-guerra, um relatório recente do Inspetor Geral para a Reconstrução Iraquiana concluiu que o orçamento americano de 15 milhões de dólares para a reconstrução, em nove anos, foi, a maior parte do tempo, mal empreendido e desperdiçado. Tudo se veio a agravar. No ano passado, houve um número crescente de vítimas de uma série de ataques que envolveram bombas e rockets. Morreram cerca de 150 a 300 pessoas por mês.

O mais chocante, para além da ação deplorável de Washington, é que após uma década, os iraquianos continuam a viver e a trabalhar sob a sombra do autoritarismo. Teoricamente, a democracia e o pluralismo estão presentes através de eleições regionais e nacionais, mas a sua substância, na verdade, é ilusória. O Primeiro-Ministro Nouri al-Maliki, outrora cúmplice dos americanos, tem agora prisões secretas e locais de tortura, detenções arbitrárias e detenções sem julgamento, níveis sem precedentes de corrupção e leis discriminatórias. Nos últimos meses, o poder tem-se consolidado apenas nas suas mãos.

A verdade é que uma grande crise doméstica já se instalou, há algum tempo, no Governo do Iraque. E tem-se vindo a consolidar. Curiosamente, um dos líderes das manifestações que ocorreram na cidade de Fallujah contra o próprio governo, Khaled Al-Jumaili, transmitiu à Al Jazeera que o combate a partir de 2004 nunca mais parou“, nós simplesmente deixámos de combater os norte-americanos para combater Al-Maliki e a sua corrupção”, acrescentou. Ouvem-se, de dia para dia, cada vez mais protestos por todo o país, e os iraquianos gritam: “Either Iraq or Maliki”!

O que será deste país no futuro? Inshallah.

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