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Por Filipa Pestana, licenciada em Relações Internacionais pela FEUC e atual
aluna do Mestrado em Middle Eastern Studies na Universidade de Lund, Suécia.
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O lugar que a minha geração tem reservado ao feminismo no espaço público parece ser (à exceção talvez de alguns sectores da esquerda política, embora não de modo consistente), o de um produto antiquado que se deve usar em doses moderadas – uma espécie de limpa pratas Coração, do tempo dos nossos avós, relativamente irrelevante a menos que a coisa esteja mesmo preta. Perdi a conta às vezes que ouvi alguém dizer “Eu sou feminista, mas não sou radical” (imagino imediatamente uma mulher de soutien em riste e depilação por fazer, como significado implícito do termo “radical”) ou “Eu não sou feminista, apenas defendo a igualdade de género” (altura em que penso para com os meus botões “Pois, és feminista!”). Por algum motivo difícil de desvendar, mas que suspeito bem ter que ver com poder (numa versão pós-moderna pode também dar-se o caso de a tarefa de ir ao Google, por exigir movimentação do dedo indicador, dar demasiado trabalho), corre a ideia de que por definição feminismo equivale ao contrário de machismo. Uma feminista será então qualquer coisa como uma apologista desse grande projeto de contra-dominação masculina, com vista ao controlo do mundo pela “melhor metade” da Humanidade. Não é pois de surpreender que, posto nestes termos, tal projeto em nada interesse aos homens.
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Proponho então um exercício de desconstrução (é favor googlar um senhor chamado Michel Foucault) que permita refletir, não só sobre as questões que subjazem à situação e à perspectiva das mulheres em vários contextos internacionais, mas sobretudo que demonstre a pertinência da crítica feminista – e da crítica à crítica feminista – como única forma de destabilizar estruturas de poder calcificadas e sugerir cenários alternativos. O primeiro passo de todos, por sinal o mais importante, terá inevitavelmente de ser a desconstrução da própria ideia de feminismo, ou melhor, do discurso que tanto pela natureza disciplinadora inerente a todos os discursos como, verdade seja dita, em virtude do nosso fraco sentido crítico, nos leva a crer que o feminismo é uma estratégia de inversão de poder. Este entendimento tem, pelo menos, dois corolários perigosos: o primeiro é o de que, uma vez amplamente conquistada a igualdade de direitos civis, o feminismo se torna dispensável; o segundo é o de que o feminismo é um assunto que diz respeito só às mulheres, uma vez que o objecto da contestação é o poder masculino.
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Entender o feminismo como estratégia de inversão de poder é, antes de mais, assumir que o conceito de poder é localizável e estático. Por outras palavras, é ver “o poder” como algo que se detém ou não, como elemento de uma estrutura rígida composta de sujeitos e objetos. Acontece que raramente somos apenas sujeitos ou objetos em qualquer relação que estabelecemos com o outro. O género não é a única variável que ordena a nossa existência enquanto seres sociais: a etnia, a classe social, a orientação sexual, o país em que vivemos ou a forma como nos vestimos ditam as diferentes mas possivelmente coincidentes “categorias” em que nos inserimos, os rótulos que lhes correspondem e a posição de poder que conferem em termos relativos.
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É aqui então que gostava de introduzir uma forma alternativa de pensar sobre o poder, tal como sugerida por um conjunto de intelectuais europeus a partir dos anos 70 (talvez valha a pena agora googlar os eventos do Maio de 68 em Paris – o ambiente generalizado de contestação da autoridade das estruturas sociais e da legitimidade do Estado, a crítica ao capitalismo e ao ego ocidental – que germinaram no pensamento pós-estruturalista). A noção pós-estruturalista de poder convida-nos a perspectivá-lo como algo mais fluído e que vem de todo o lado, mostra-nos como ele navega através das estruturas sociais, sendo produto da ordem e da disciplina mas também passível de ser contestado, negociado, construído. Assim, o feminismo não se esgota na obtenção do direito ao voto ou na igualdade salarial, nem é exclusivamente um tema de mulheres, porque a crítica que ele oferece não é tangível no plano maniqueísta em que nos habituámos a colocá-lo: o feminismo não tem nada que ver com a luta de sexos nem, arrisco dizer, com a aquisição de poder num sentido material, mas com a ordem geral das coisas e com a gestão do conhecimento. É, enfim, a denúncia de uma estrutura que oprime e da instituição epistemológica que a mantém e/ou legitima.
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Da mesma forma que a luta contra o racismo não nos remete para um elogio da supremacia negra mas para o desmantelamento da supremacia branca – porque reconhecemos que ela existe e que, num contexto pós-colonial, continua a ser mais fácil ser-se ocidental (e branco) do que pertencer a outra “categoria” qualquer – e que não diríamos que a necessidade dessa luta se esgotou com o fim da escravatura nem que os brancos não são para aí chamados; o feminismo não pode nunca remeter para uma inversão completa do status quo. Isso seria, além de moralmente duvidoso, a contradição da sua essência. Dado que uma coisa não pode ser aquilo que não é, faz pouco sentido falar de feminismo como se ele fosse enquadrável num espectro entre a moderação e o radicalismo, bem como ignorar o seu carácter inclusivo, transversal, e por isso também um assunto de homens (“uma coisa da democracia”, para citar José Manuel Pureza). Em suma, não se é “feminista mas…”, porque não há feminismos maquiavélicos e feminismos bonzinhos – o que há é distorções conceptuais ou, no mínimo, aplicações susceptíveis de crítica.
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Para além do uso prático que, como homens e mulheres, podemos fazer das abordagens feministas – procurando reduzir, através de medidas políticas concretas ou dos pequenos atos de subversão quotidianos, o ainda existente gap entre a experiência de ser mulher e a de ser homem – a academia (as Relações Internacionais, os Estudos de Área e as Ciências Sociais de um modo geral) beneficia das análises informadas pela crítica feminista, do desafio que esta coloca à lógica patriarcal inerente à construção dos Estados modernos e do espaço que cria para imaginar outros Futuros. Porém, se comecei por dizer que a minha geração reservava ao feminismo um lugar subalterno, afirmei-o de um ponto de vista situado, no tempo e sobretudo no espaço. Contudo, é de notar a constante discussão do papel das mulheres fora do Ocidente – por homens e por mulheres, tanto em conversas informais como em argumentos académicos – uma preocupação cuja origem é difícil precisar mas que parece ter-se tornado mais perceptível no pós 11 de Setembro (ou então talvez esta se tenha tornado, por excelência, “a linha que separa” o antes e o depois da minha consciência internacional). Os focos dessa preocupação com as mulheres são infindáveis: o uso do véu pelas muçulmanas; a mutilação genital em África e no Médio Oriente; os casamentos arranjados, por exemplo, no seio da comunidade Roma; os crimes de honra; a participação limitada na vida política; as restrições à mobilidade, entre muitos outros.
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Recentemente, três casos dominaram a antena internacional: o de Malala, a jovem paquistanesa baleada pelos talibã por insistir em frequentar a escola, que não recebeu o Nobel da Paz por um triz mas que os media ocidentais elegeram como símbolo triunfal dos valores liberais, mesmo que – ou sobretudo se – evocados a partir da periferia; o protesto saudita contra a lei que proíbe as mulheres de conduzir e que provocou de imediato a simpatia internacional, acompanhado da criação caricata de um cover satírico de uma canção de Bob Marley redenominada “No Woman, No Drive”; e ainda a campanha viral da UNWomen sobre as representações femininas reveladas nas procuras do motor de busca Google (eu disse que dava jeito!), que agitou as ideias dos que se indignaram com a frequência de resultados como “as mulheres são inferiores aos homens” ou “as mulheres muçulmanas não devem votar”. Em todos estes casos, é clara a dicotomia Ocidente/Oriente, lente pela qual se tornou normal observar todos os fenómenos internacionais e que torna o mundo não-ocidental numa presa fácil da crítica feminista – esta, por sua vez, um claro produto da modernidade europeia nascida da Revolução Industrial, basta pensarmos nas primeiras referências feministas, as sufragettes britânicas. Mas a teoria feminista “made in the West” ter-se-á certamente espantado quando em 2011, tombadas as peças do dominó árabe, as mulheres tunisinas, egípcias e líbias não agradeceram a libertação messiânica de toda a opressão que o ambiente de abertura política considerada proto-democrática supunha mas, ao invés, mantiveram o véu (e outros alegados “espartilhos” sociais) como expressão cultural da sua identidade.
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Terminarei pois com uma referência inevitável à necessidade de “crítica da crítica”. As abordagens feministas e os discursos que produzem, como acontece com todas a construções de influência predominantemente ocidental, estão também elas impregnadas dos seus próprios preconceitos. Teóricas feministas como bell hooks, Lila Abu-Lughod ou Chandra Mohanty chamam a atenção para o facto de o feminismo “clássico” construir a mulher do dito terceiro mundo como “a outra”, o desvio à norma, a nativa em constante necessidade de salvação. Isto é problemático no sentido em que, ao permear-se determinada cultura ou noção do que significa ser mulher, invariavelmente se marginaliza outra, o que constitui nada menos do que um exercício de autoridade. Em última análise, e tentando cumprir o presunçoso subtítulo deste artigo: ‘modo de usar’, a crítica feminista apresenta-se extremamente útil como ferramenta para melhorar a vida das mulheres, negociar e/ou abalar a estrutura que sustenta a sua opressão, o que só pode fazer se compreender a intersecionalidade1 de todas as formas de opressão; por outro lado, resulta inútil quando falha essa tarefa e perpetua sistemas de dominação, sinal de que precisa de ser repensada ou reajustada.

Não é assim, afinal, com todas as ferramentas?
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Eu tenho pena, mas sou feminista.
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1 Diz-me o dicionário que intersecionalidade (intersectionality) não existe em português. Em todo o caso, porque ainda não encontrei outra palavra que exprimisse tão bem a imagem que quero passar – e porque importa desafiar a estrutura – opto por mantê-la.

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