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Por Filipa Pestana, licenciada em Relações Internacionais pela FEUC e atual aluna do Mestrado em Middle Eastern Studies na Universidade de Lund, Suécia.

Nós, elas e tudo o que se passa no meio

Uma tentativa de problematizar O Sexo e a Cidade 2 à luz do Feminismo Pós-colonial e dos Estudos Críticos de Segurança.

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Lembro-me de assistir àquela que se tornaria a série televisiva de culto do chamado pós-feminismo ocidental – a produção da cadeia norte-americana HBO O Sexo e a Cidade, que esteve no ar entre 1998 e 2004 – antes de ter idade para poder falar dela desembaraçadamente numa conversa de café (na idade em que “orgasmo” ainda soa a qualquer coisa que não se deve dizer muito alto). Em cada episódio, a protagonista Carrie Bradshaw, na companhia das suas confidentes, é confrontada com as idiossincrasias da desafiante Manhattan, ora deixando-se seduzir pelos seus vícios ora parecendo domá-la por instantes, rendendo-se sempre aqui e ali ao prazer de uma noite bem passada ou, em alternativa, a um bom par de Manolos em saldo.

A abordagem de O Sexo e a Cidade ao universo feminino contemporâneo, pela sua ousadia, cedo foi objecto de diversas e profundas críticas mais ou menos académicas. As suas personagens tornaram-se alvo incontornável de análises no campo dos Estudos Feministas, que oscilaram entre o elogio e o repúdio. A construção do género e da sexualidade que a série espelha foi, tanto para fãs como para haters, um ponto de
partida para pensar sobre o papel da mulher nos Estados Unidos, expoente máximo do modelo capitalista, e de uma forma geral nas restantes democracias de perfil liberal.

Ainda que musas de um quadro cravejado de clichés sobre a feminilidade e as maravilhas da sociedade de consumo americana, Carrie e companhia sempre me pareceram ter algo importante a dizer: que ter sexo (e já agora, gostar de sexo) não é sinónimo de vulgaridade; que a definição de mulher não se empacota nas palavras “mãe”, “doméstica”, “casada” (nem nos seus contrários); ou tão só que o dinheiro não compra felicidade mas que sair feliz de um centro comercial não é pecado (sobretudo no final de um mês que custou a ganhar). Tal como a mim, marcaram uma geração de mulheres que continua à procura do seu lugar num mundo que não lhes confere ainda plena igualdade de tratamento e de oportunidades.

Pergunto-me se a popularidade das quatro amigas teria sido a mesma fossem elas meras assalariadas do Bronx, desprovidas de glamour, de chinelo no dedo e esfregona na mão, em vez de empresárias ou escritoras do Upper East Side. Provavelmente não, e talvez seja relativamente inútil tentar perceber o que é que uma coisa seria se não fosse aquilo que é. Mas pelo menos não nos deixemos enganar: O Sexo e a Cidade não é uma série sobre mulheres; é uma série sobre mulheres ocidentais, brancas, tendencialmente heterossexuais (apenas a fugaz Samantha fez uma expectável, mas breve, incursão no mercado lésbico) e, talvez o mais importante, pertencentes à média/alta sociedade nova-iorquina. Assim, o que salta de imediato à vista é que esta representação do quotidiano feminino deixa de parte mais mulheres do aquelas que inclui.

Dito isto, resulta de interesse analisar um produto cultural como O Sexo e a Cidade nas suas diferentes manifestações ao longo dos anos, e cuja abordagem mesclada de questões como o género, a sexualidade, mas também a classe e a etnia, geralmente sai ofuscada pelo rótulo de “série feminina”. Os dois filmes produzidos após o final da série vêm acrescentar novas dimensões a esta discussão, em particular a sequela, que serve de ponta-de-lança para a análise que aqui me proponho fazer. Recorrerei ao Feminismo Pós colonial bem como ao contributo dos Estudos Críticos de Segurança na tentativa de problematizar os tópicos tratados em O Sexo e a Cidade 2, um filme que tem pela primeira vez como pano de fundo, não Nova Iorque mas Abu Dhabi, nos Emirados Árabes Unidos.

A comédia passa-se durante uma escapadela ao “novo Médio Oriente”, a pretexto de uma viagem de trabalho de Samantha, que assim proporciona a todas uma semana de lazer num cenário digno d’As Mil e Uma Noites. Por entre cocktails no deserto, tardes de compras no souk e reencontros amorosos inesperados, as quatro amigas renovam votos de companheirismo ao mesmo tempo que tomam contacto com uma cultura diametralmente oposta à sua. Não é necessário muito tempo para se perceber que se está perante o tipo de imaginário neo-orientalista em que Hollywood e, enfim, a arte ocidental sempre foram bastante férteis. Seria, porém, demasiado óbvio e pouco ambicioso da minha parte limitar-me a fazer um pastiche do conceito de orientalismo (1) aplicado a este filme, como quem relata a descoberta da pólvora (ainda que ler Edward Said seja, na realidade, um bocadinho como descobrir a pólvora).

Os elementos estão todos lá: um conjunto recorrente de binários (nós vs. eles/as, Ocidente vs. Oriente, moderno vs. arcaico); um Oriente visto como exótico e inevitavelmente menos civilizado; uma representação do homem e da mulher orientais como fracos (ele na sua incapacidade de controlar impulsos sexuais, ela pela condição de repressão a que está sujeita). Acontece que as perguntas que se impõem transcendem, a meu ver, esta simples constatação. O que é que a tentativa de aproximação do universo feminino ocidental ao “resto” do mundo, patente no filme, nos diz sobre como aplicar a Teoria Feminista de modo a captar a interseccionalidade dos processos de opressão/diferenciação? De que forma as Relações Internacionais, particularmente os Estudos de Segurança, tendem a acomodar as questões de género, que discursos produzem, e como analisá-los criticamente num contexto pós-colonial?

O Feminismo clássico procurou afirmar as diferenças inescapáveis entre as experiências feminina e masculina, salientando uma certa “essência feminina”. Esta abordagem fez sentido numa altura em que unir as mulheres enquanto categoria social coerente era fundamental para promover a solidariedade interna e a luta pela igualdade de direitos. Sem esta estratégia, o modus vivendi das mulheres de O Sexo e a Cidade não seria possível. Mas, uma vez amplamente adquirido um conjunto de direitos civis (no Ocidente pelo menos) e enquanto muitos se apressaram a descartar a necessidade do discurso feminista, as fraquezas do modelo começavam a ser apontadas por largos segmentos da população feminina que permaneciam marginalizados por uma Teoria Feminista que havia sido, na sua maioria, um produto e uma prerrogativa da mulher branca de classe média.

O Pós-colonialismo foi uma das correntes que reagiu à idealização ocidental do significante mulher, criticando as novas dicotomias criadas por essa idealização, que não eram afinal muito diferentes da dicotomia hierárquica homem vs. mulher que o Feminismo procura antes de mais combater. A definição das experiências femininas não-ocidentais como distorções ou travesties, que foi fruto de uma concepção ocidental do projecto de modernidade, tornou-se tão condescendente para a mulher pós-colonial como a sociedade patriarcal – ao invés de a libertar, oprimindo-a duplamente. (2)  Assim, parece mais apropriado falar de Feminismos (no plural) entendendo as suas várias formas como parte e não cópia falhada do projecto de modernidade, numa espécie de caleidoscópio de histórias que merecem ser contadas.(3)
A dificuldade reside em evitar o exercício paternalista de “dar voz” às protagonistas dessas histórias numa lógica de vitimização, mas conseguindo ainda assim resgatar os discursos subalternos que produzem enquanto agentes de pleno direito. (4)

Um bom exemplo dessa dificuldade é a sobre-ênfase mediática e académica no uso do véu pelas muçulmanas, manifestação de como a guerra se trava, também, sobre os corpos das mulheres. Em O Sexo e a Cidade 2 encontramos essa interpretação mainstream do véu como elemento fundamental de opressão feminina. Enquanto conversam na piscina do hotel, Carrie e as amigas detêm-se num grupo de mulheres,
uma das quais levanta sucessivamente o niqab para comer batatas fritas. Os seus comentários denunciam um misto de genuína curiosidade e quase horror. É de notar um esforço de desconstrução das formulações ocidentais/liberais de agência ao longo do filme, por exemplo quando Miranda comenta que o patrão, sempre que pode, procura silenciá-la ou quando Carrie é confrontada com o cartoon que ilustra a crítica ao seu novo livro na revista The New Yorker, e em que aparece com a boca tapada com fita adesiva. Mas apesar da tentativa de fazer o paralelo entre a dominação masculina no Ocidente e no Oriente, em momento algum a questão do véu deixa de ser equacionada como factor de opressão e conservadorismo, pelo que o potencial crítico se perde no estereótipo e na adopção de uma noção de modernidade culturalmente enviesada.

O Sexo e a Cidade 2 estreou nos cinemas em 2010, em plena intervenção norteamericana no Afeganistão. No mesmo ano, na capa da revista TIME(5), a fotografia de uma jovem Afegã a quem haviam sido cortados o nariz e as orelhas fazia-se acompanhar do título “O que acontece se sairmos do Afeganistão”. Podendo parecer
rebuscada, serve esta associação para demonstrar a forma como o corpo feminino é “securitizado” e instrumentalizado na condução da política internacional. (6) Uma combinação entre o Feminismo Pós-colonial e os Estudos Críticos de Segurança abre espaço à denúncia da superioridade moral que subjaz à ideia de que cabe ao Ocidente salvar a mulher oriental da sua própria cultura, nomeadamente da sua religião, se necessário pelo recurso à força militar. (7)

A machadada final de O Sexo e a Cidade 2 dá-se quando ao deixar cair da carteira um mar de preservativos Samantha grita “Yes, I have sex!”, perante o olhar furioso e escrutinador de uma dezena de homens. Sendo, não obstante, um dos momentos mais divertidos do filme, a cena faz cair por terra a frágil ponte que o argumento procurara construir entre o nós e o eles/as para afirmar, como se esperava – descarada e apetece dizer, ingenuamente – que na América é que é bom. Depois de ajudadas a fugir da confusão por um grupo de mulheres que lhes empresta as suas burqas, acabando assim por revelar sob os mantos os últimos modelitos das passerelles de Nova Iorque, o bonding entre as personagens femininas fica reduzido a pouco mais do que as roupas de marca que usam, como quem diz “afinal elas lá no fundo até são, e querem
ser, como nós”.

Em conclusão, podemos dizer que o debate ocidental em torno dos assuntos das mulheres, de que a popular série e filmes O Sexo e a Cidade fazem sem dúvida parte, revela uma ontologia liberal e, embora de forma mais subtil, uma herança colonial. Se o conceito de Feminismo foi sempre contestado e moldado, tanto em teoria como em prática, por contextos históricos, políticos e regionais específicos, então faz sentido exigirmos (como académicos ou tão só como espectadores) uma noção mais inclusiva e trans-cultural do mesmo.(8) Não quer isto dizer que esta noção resolverá os desafios colocados às mulheres pelos contextos sociais em que vivem, nomeadamente no Médio Oriente, nem se faz aqui qualquer apelo ao relativismo cultural. Mas o processo de desenvolvimento de uma consciência crítica e o reconhecimento de que os esterótipos magoam, mesmo quando camuflados de humor e entertenimento, são importantes num mundo que se diz ligado mas em que persistem ainda demasiadas “linhas que separam”.

1 Said, Edward. 1979. Orientalism. Vintage Books.

2. Mohanty, Chandra. 1991. “Under Western Eyes: Feminist Scholarship and Colonial Discourses” in Third World Women and The Politics of Feminism, http://www.sfu.ca/iirp/documents/Mohanty%201991.pdf.

3 Abu-Lughod, Lila. 1998. Introduction: Feminist Longings and Postcolonial Conditions. Remaking Women: Feminism and Modernity in the Middle East. Princeton University Press.

4 Spivak, Gayatri. 1988. “Can the subaltern speak?” in Marxism and the Interpretation of Culture,
http://www.maldura.unipd.it/dllags/docentianglo/materiali_oboe_lm/2581_001.pdf.

5 TIME. 9 Agosto 2010, http://content.time.com/time/covers/0,16641,20100809,00.html.

6 Zine, Jasmine. 2007. “Between Orientalism and Fundamentalism: Muslim Women and Feminist Engagement” in (En)Gendering the War on Terror, War Stories and Camouflaged Politics. Ashgate (e-book).
7Abu-Lughod, Lila. 2013. “Do Muslim Women Need Saving?” in TIME, http://ideas.time.com/2013/11/01/domuslim-women-need-saving/.

8 Moghadam, Valentine. 2002. “Islamic Feminism and Its Discontents: Toward a Resolution of the Debate” Signs, Journal of Women in Culture and Society 2002, vol. 27, no. 4: 1135- 1171, http://tavaana.org/nu_upload/L1_-_Islamic_feminism.pdf.

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