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Por Antea Gomes, licenciada em Relações Internacionais pela Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra.

Abril presenteou-me com aquela que inocentemente rotulo como uma das melhores experiências da minha vida. Dez dias na Geórgia ao abrigo de um intercâmbio gentilmente patrocinado pela Comissão Europeia, com o objectivo de juntar jovens vindos de Espanha, Hungria, Republica Checa, Arménia, Azerbaijão, Rússia e Geórgia à volta de um mundo que usa a música para ultrapassar as marcas deixadas pela guerra.

Não há como negar que as minhas expectativas eram altas. Aliar uma área das Relações Internacionais à Música e ainda ter a oportunidade de estar em dois campos de deslocados internos em pleno Cáucaso faziam-me mexer da cadeira como se fosse novamente criança em véspera de Natal. E a verdade é que este presente bateu qualquer expectativa.

O projecto andou de mãos dadas com a organização Musicians Without Borders e o trabalho que vem a desenvolver desde 1999. Começou nos Balcãs, primeiro na Bósnia e depois no Kosovo. Os bons resultados levaram o projecto a expandir-se para a Cisjordânia e depois para o Ruanda. Mas, afinal, o que fazem estes Músicos Sem Fronteiras?

No fundo, usam a música enquanto motor de reconciliação em contextos de pós-conflito, especificamente em campos de refugiados e de deslocados internos. Unem músicos, organizações e sociedade civil locais para promoverem a tolerância e curarem os traumas deixados pela guerra ou por conflitos armados. No entanto, não se pretende transportar para aqui a rigidez das aulas de um conservatório, a seriedade de uma partitura ou o aborrecimento de um solfejo. Pretende-se, acima de tudo, que cada um/a se sinta convidado/a a exteriorizar e a partilhar a música que traz dentro de si, a diluir as fronteiras e os ódios que o conflito ergueu e a construir um projecto comum que possa ser legendado com sorrisos.[i]

O ano necessário para a idealização deste projecto revela a dificuldade que carrega desenhar algo que cai fora dos limites da caixa, algo cujos resultados não se traduzem propriamente num produto palpável ou mensurável. A escravidão dos relatórios subjugados aos números e às autossuficientes buzzwords e, sejamos francos, a subestimação da dimensão psicossocial no processo de reconstrução da paz em contexto pós-conflito, surgem como obstáculos para quem quer e ousa ser um peacebuilder fora dos trâmites convencionais.

Gostando deles ou não, clichés como “a música é uma língua universal” têm uma razão de ser. Não se viram barreiras linguísticas quando se juntou uma guitarra espanhola a um duduk arménio, quando (tentámos) cantar e dançar uma canção tradicional georgiana, quando juntos experimentámos exercícios de percussão corporal. Viram-se emoções, sorrisos de orelha a orelha, indiferenças adolescentes, talvez uma lágrima no canto do olho.

E agora, como é que isto se mede? Que escala se usa? Vamos contar sorrisos? Contar palmas? Saltos? Medir a intensidade de abraços? Aplicar um novo índice de felicidade?

Não se mede. Confinar invisibilidades incomensuráveis a grelhas impressas em folhas de papel que se destinam a uma gaveta de um escritório qualquer é reduzir-nos a números. Não somos números, somos gente, para lá da língua, para lá da fronteira. A música faz isto.

[i] Para saber mais sobre a organização ver aqui: http://www.musicianswithoutborders.org/

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