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Steven Salaita é um académico norte-americano que até 2014 trabalhava como professor de Estudos Nativo-Americanos na Universidade de Illinois Urbana-Champaign (UIUC), quando foi despedido pela administração da universidade devido a um conjunto de publicações na sua conta pessoal de Twitter em que criticava abertamente o Estado de Israel pela mais recente intervenção na Faixa de Gaza. Ao ser informado por carta da cessação do seu contrato, Salaita deu início a um processo judicial longo, oneroso e controverso, que chega agora ao fim. O comunicado oficial emitido pelos seus advogados, dá conta de um acordo entre as partes em que Salaita não será readmitido mas receberá $875,000, mediante desistência das acusações de violação do seu direito à liberdade de expressão e contrato de trabalho, previamente apresentadas. O acordo é descrito como tendo contribuído para “revigorar o ensino superior americano  enquanto espaço de pensamento crítico e de debate rigoroso”, mas as opiniões divergem.

Talvez seja importante, se não mesmo imprescindível, começar por falar um pouco das origens e trajetória profissional de Steven Salaita, para compreender melhor este caso. Nascido em solo Americano, mas criado por descendentes Palestinianos imigrados no Nicarágua, Salaita formou-se em Ciência Política e Literatura Inglesa, tendo obtido o seu doutoramento em Estudos Nativo-Americanos na Universidade de Oaklahoma. Escreve amplamente sobre tópicos como imigração, deslocação forçada, povos indígenas, raça e multiculturalismo. O seu livro “Anti-Arab Racism in the USA”, premiado em 2007 pelo Centro para o Estudo da Intolerância e Direitos Humanos Gustavus Myers, analisa em profundidade o racismo anti-árabe nos Estados Unidos ao longo das diversas administrações. Mas é principalmente a sua abordagem comparativa a autores literários Palestinianos e Nativo-Americanos, com ênfase nos discursos “descoloniais”, que o torna uma das figuras de proa da crítica do conceito de “indigeneidade”.

O despedimento de Salaita deu origem a inúmeras demonstrações de indignação, dentro e fora do campus da UIUC, por parte de alunos, colegas e organizações de professores e cientistas políticos. Mas se a decisão agora alcançada recebeu aplausos pela vitória pessoal do Professor (e garantia de alguma segurança financeira para a sua família), gerou também duros ataques por parte de académicos, como Mark LeVine (UC Irvine e Universidade de Lund), que não vê neste acordo mais do que uma derrota de um ponto de vista colectivo, e um verdadeiro desastre para a liberdade académica. Na opinião de LeVine, a luta contra o silenciamento dos críticos de Israel e dos ativistas dos direitos do povo Palestiniano deve continuar e ser mais “militante” desde o início, para que situações como esta não se repitam e os investigadores que não tenham meios para refutar uma decisão da forma que Salaita o fez possam ainda assim estar protegidos pelo apoio da comunidade académica.

Fosse este um caso isolado na academia, e talvez este meu texto não tivesse razão de existir, embora toda a injustiça isolada seja um ataque à justiça em geral. Mas o que faz deste um episódio a reter, é o facto de se inserir numa sequência de outros acontecimentos, que inclui: a criação de uma  lista negra de académicos críticos de Israel; acusações infundadas de anti-semitismo; o cancelamento de eventos e palestras; tentativas de proibição do movimento BDS (Boicote, Desinvestimento e Sanções) nomeadamente no meio académico, onde permanece uma estratégia controversa; ou, mais semelhante a este caso, a suspensão em 2007 de Norman Finkelstein da Universidade DePaul pela sua crítica mordaz ao trabalho de Alan Dershowitz, Benny Morris e outros autores sobre o Holocausto. Está pois aqui em questão o princípio de livre produção de conteúdo científico crítico, e a cedência das instituições académicas à pressão de grupos económicos com interesses na manutenção da atual política norte-americana para o Médio Oriente. Não é de estranhar que, no âmbito do “Freedom of Information Act”, tenham vindo a público diversas ameaças de corte de financiamento à UIUC, caso Salaita não fosse afastado.

É verdade que este caso galvanizou cerca de 5000 pessoas globalmente, 5000 pessoas que durante um ano não deram descanso à Universidade de Illinois. E é igualmente verdade que, em virtude dos elevados custos judiciais e da perda de algum soft-power para  UIUC, será mais difícil no futuro despedir alguém com base nas suas posições políticas. Mas, infelizmente, é também muito provável que esta e outras universidades ponderem melhor antes de contratar académicos como Salaita, tornando mais difícil para jovens investigadores falarem e escreverem livremente sobre temas fraturantes como o apoio americano a Israel, a Islamofobia, ou as comunidades “desenfranchisadas” quer no Médio Oriente, quer dentro dos Estados Unidos.

Em última análise, embora este processo tenha custado caro à Universidade de Illinois, terá sido ainda assim um pequeno preço a pagar pela manutenção do investimento pró-Israelita. Nesse sentido, impõe-se uma reflexão mais séria sobre que universidade queremos, para quem, e que tipo de interesses o trabalho académico espelha. E isto não só nos Estado Unidos. Basta relembrar o caso português da retirada de circulação de um número da Revista do ICS que contava com um ensaio visual sobre arte urbana e política, para perceber que o debate não se esgota na academia americana. Tal debate é fulcral sobretudo, mas não só, no contexto das ciências sociais, em que os meios para uma investigação rigorosa e para um posicionamento político, ideológico e normativo livre de represálias têm de estar absolutamente assegurados – em simultâneo.

* Algumas das obras de Steven Salaita podem ser consultadas em http://muse.jhu.edu/journals/lit/summary/v032/32.2salaita.html, http://www.interfacejournal.net/wordpress/wp-content/uploads/2012/05/Interface-4-1-Salaita.pdf, http://www.tandfonline.com/doi/pdf/10.1080/1066992022000007790, http://uclajournals.org/doi/abs/10.17953/aicr.26.4.c63133007v77474t?journalCode=aicr.

** O comunicado de imprensa dos seus advogados pode ser consultado em https://ccrjustice.org/home/press-center/press-releases/settlement-reached-case-professor-fired-uncivil-tweets.

 

 

Filipa Pestana

Licenciada em Relações Internacionais pela Universidade de Coimbra

Mestre em Estudos do Médio Oriente pela Universidade de Lund

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