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Hoje o mundo parou perante imagens que certamente marcarão a vida de alguns. Um atentado numa capital europeia move massas, incita a discursos presidenciais por todo o mundo e conduz a ondas de solidariedade incríveis de se observar. Porém, o que me entristece, na verdade, é esta característica humana dos indivíduos só atuarem quando a questão lhes toca diretamente.

Sem querer de modo algum menosprezar a profunda dor que todos os familiares das vítimas sentem neste momento e os movimentos de solidariedade que se desenvolveram desde o sucedido, questiono-me apenas numa penetrante reflexão sobre o âmago do ser humano que tudo sabe criticar sem ponderação prévia. Culpar os refugiados? Ainda não foram divulgadas quaisquer certezas quanto à nacionalidade dos terroristas, contudo, na minha opinião, não é por terem sido acolhidos refugiados de guerra que estes atentados ocorreram; aliás, o ataque ao Charlie Hebdo – algo recente – foi perpetrado por cidadãos nacionais.

E o mais assustador é observar o medo a entranhar-se no ar, nas pessoas, num simples olhar de quem passa por nós na rua e pensar se aquele sujeito nos vai prejudicar no próximo minuto ou se é alguém tão assustado como nós. Claro que há milhares de variáveis a ponderar numa questão transnacional como é o acolhimento ou não de pessoas com estatuto de refugiados, porém não se deve, logo à partida adotar uma postura de «não quero saber, eles que fiquem no país deles». Apesar de tudo, várias «mãos» internacionais foram estendidas a França neste momento horrível sem qualquer hesitação de modo totalmente pertinente; e agora interrogo-me: quantas mãos foram dadas aos refugiados que todos os dias morrem ao tentar escapar de um cenário como este que, apesar de terrível, para nós foi ocasional e para eles é uma constante?

Hoje ao acordar e ao ter conhecimento das atualizações de mortos e feridos decorrentes do atentado em Paris fui assoberbada por uma profunda tristeza e mágoa, e assim penso: não estará na altura de começar a pôr-nos no lugar do outro?, a conceber de facto de que é que os refugiados tanto fogem? A guerra não é banal, ainda que ultimamente pareça. A guerra faz vítimas, feridos e mortos; derrama sangue e lágrimas e marca não só cada história individual como toda uma narrativa coletiva. A guerra são mais que as notícias que todos os dias vemos na televisão e que mudamos de canal por já as termos visto naquele dia ou por serem parecidas às da semana anterior. A guerra é real: não está a acontecer aqui, mas está a acontecer agora.

Sinto que escrevo num vazio que só será preenchido no dia em que as pessoas se aperceberem que o mundo não é só as fronteiras de países vizinhos; o mundo não é só as belas paisagens de países «desenvolvidos»; o mundo não é só o «nosso mundo»: vivemos como se existisse uma linha entre nós e os «coitados» – «Morreram mil crianças num atentado no Médio Oriente» e diz-se «Ah, coitados!»; «Morreram quinhentas pessoas num atentado bombista» e pensa-se «E lá foram outros mortos por aqueles extremistas doidos». A questão é que «aqueles» hoje somos nós; «aqueles» que vivem 24 horas num cenário de terror e guerra hoje têm dor; os que hoje sofrem pelo que se sucedeu ontem partilham agora a dor de uma vida «daqueles» povos.

Hoje nós somos os «outros». Hoje é um novo dia. Hoje está mais que na altura de despertar o mundo para fazer a diferença na vida de alguém. Informemo-nos e lutemos para que possamos deixar o mundo um pouco melhor do que estava quando acordámos.

Joana Prata, aluna da licenciatura em Relações Internacionais pela Faculdade de Economia da UCpray_for_paris130434103

2 thoughts on “Artigo de opinião por Joana Prata acerca dos recentes atentados terroristas em França

  1. Já foram confirmadas, e provém mesmo de refugiados, o passaporte encontrado entrou na Grécia como refugiado, por esse ponto de vista também não devias de esperar por existir um massacre destes para dar a tua opinião, muitas vezes as pessoas não comentam ou nao tecem opiniões não por não se importar mas por pensar que nunca lhes vai tocar!

    • Não, não foi confirmado. Os únicos terroristas cuja nacionalidade já foi verificada eram europeus: cidadãos franceses residentes em Bruxelas, por exemplo. Quanto ao passaporte encontrado, segundo o diário de notícias, este “pode ser um documento falsificado comprado na Turquia já que pertence a um soldado que combateu na Síria e já morreu.”
      E eu já escrevi sobre assuntos similares sem ter havido massacres previamente, apenas não foi para este jornal.
      E, por fim, considero que quando alguém acha que um certo assunto “nunca lhe vai tocar” é porque não se importa de todo com a realidade mundial.

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