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Dados os mais recentes acontecimentos não pude deixar de pensar em como é que os Homens se tornaram tão desumanos e como é que é possível desprezar tão veemente a vida dos nossos semelhantes em prol de um conjunto de crenças construídas e trabalhadas de tal forma que a sua imposição tenha que recorrer à violência em massa.

O mundo é complexo, dele fazem parte biliões de pessoas, cada qual com os seus interesses, milhares de diferentes povos, cada qual com a sua História e centenas de religiões, cada qual com a sua fé. Neste emaranhado de vontades, torna-se impossível existirmos sós. O ser humano precisa de sentir que pertence, está constantemente em busca de algo com que se possa identificar: uma ideologia, uma religião, uma nação. Os Homens sucumbiriam à solidão sem o prazer de saberem que existem pessoas que pensam da mesma maneira que eles, que partilham as mesmas crenças, que escreveram a História lado a lado com os seus antepassados. Assim, a existência de uma necessidade natural e inerente de nos agruparmos em grupos que partilham os mesmos interesses, valores, cultura ou ideias que nós é irrefutável.

O problema começa quando o respeito acaba e quando nos esquecemos que pertencemos todos à mesma entidade coletiva, a Humanidade. Antes de sermos cristãos, muçulmanos, conservadores, revolucionários, portugueses ou americanos, somos humanos. O extremismo tem a sua origem quando as pessoas, ludibriadas pelo fascínio que é fazer parte de algo, se fecham sobre o grupo ao qual pertencem deixando de conseguir ver para além do que ele aceita. Sempre ouvi dizer que o amor consegue cegar um homem. Ora, o amor por um povo, uma religião ou uma ideologia consegue cegar milhares. É difícil manter a clarividência quando a nossa mente está formatada e é mais cómodo pensar segundo modelos pré-definidos, seguindo uma ideologia fixa e delimitada.

E o que acontece quando esta dinâmica é explorada de modo a atingir todo o seu potencial? O que acontece quando o ser humano deixa de ser um individuo próprio para passar a ser uma peça dentro de um sistema mais complexo do que ele? O que acontece quando as personalidades individuais são diluídas dentro de uma só personalidade coletiva, que exerce uma pressão continua para que ninguém consiga sair dos padrões por ela criados? O que acontece quando nos esquecemos que somos humanos e não peças de uma grande máquina superior a nós? Quem consegue fazer com que os Homens se esqueçam de ser Homens, consegue mobilizá-los de modo a atingir qualquer fim. Não é do Homem que pensa que devemos ter medo, é do Homem que deixa de o conseguir fazer, descartando juntamente com esta capacidade, a sua consciência moral.

“What stuck in the minds of these men who had become murderers was simply the notion of being involved in something historic, grandiose, and unique.”

– Hannah Arendt, Eichmann in Jerusalem: A Report on the Banality of Evil

Deste modo, em tempos negros, o maior apelo que se pode fazer é que não deixemos de pensar. É necessário ver para além das caraterísticas que a sociedade usa para nos definir. Esqueçamo-nos da nossa nação, da nossa religião e da nossa etnia por uns instantes e invoquemos algo mais primordial que tudo isso. Deixemos de parte tudo aquilo que nos impede de ver o mundo tal como é e voltemo-nos para o essencial. Apelemos à Humanidade.

Catarina Santos, aluna da licenciatura em Relações Internacionais pela FEUC

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